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O siêncio da violência psicológica na internet

Era ano de 2016, estava radiante de alegria. Estava num emprego dos sonhos, após um ano desempregada, e com um projeto em andamento, já que no emprego que havia conseguido tinha mais tempo para me dedicar a alguns projetos pessoais. Morava com uma pessoa há cinco anos, muito calma, inclusive. Mas, no passado, já tinha deixado rastros de sentimentos muito estranhos por mim. Nos conhecemos na empresa em que trabalhávamos. Ele menosprezava meu trabalho, dizia que eu deveria procurar algo melhor, ao invés de ficar só respondendo pessoas na internet (eu era da área de marketing digital de uma empresa, além de toda parte de criação de vídeos e fotografias, não achava meu trabalho menor do que o de ninguém, muito pelo contrário, acreditava naquele trabalho como um dos mais importantes da empresa, fato que se concretizou logo após boa parte do investimento de impresso da empresa ter se destinado à mídia digital). Mas também não via com um sentimento ruim as palavras dele, acreditava que aquilo era um pouco de ignorância referente ao trabalho de mídias, justamente porque era uma pessoa mais velha e não acreditava no poder da internet. Logo que saí dessa empresa, ele me dizia que sentia um pouco de ”inveja branca” de mim, pois ele que também era fotógrafo, me viu conseguindo um emprego no Governo, na área de fotografia. Cargo do qual aos quase 40 nunca tinha conseguido. Como sabia que começaria um grande projeto na empresa que trabalhávamos juntos, tentei conciliar os dois trabalhos. Fui muito feliz na tarefa, inclusive, fiz com que ele ganhasse grande gabarito no cargo dele, dividindo tarefas. Saímos da empresa e fomos montar projetos juntos. Não deu muito certo e eu voltei a trabalhar fora. Ele ficou dois anos desempregado. Como tinha um amigo que conhecia uma pessoa numa área de comunicação, o indiquei e ele foi contratado. Tive um grave problema familiar que muito me abalou, mas que me fez continuar a dar andamento em todos os meus projetos. Nessa época, acabei ficando sem trabalho, pois meu contrato tinha encerrado. Como ele estava empregado, não fiquei tão preocupada. Mas também não fiquei parada, pois precisava trabalhar e gostava muito. Foi nesse momento que o grande caos aconteceu em minha vida. Estava voltando ao mercado de trabalho justamente no emprego dos sonhos e com um projeto que muito me fazia feliz. Ele começou muito a me criticar e aquilo foi me fazendo muito mal. Até que começaram a invadir minha conta de Facebook e enviar mensagens para meu chefe, trocar senhas de e-mail, entre outras maldades. Tentava explicar isso para minha família e amigos, mas muitos achavam que era coisa de minha cabeça. Que eu estava maluca. Em uma das mensagens enviadas ao meu chefe através do meu facebook, acabei perdendo o emprego. Daí, começou uma situação de muitas confusões, onde ele sempre estava presente. Ele dizia que quem estava enviando as mensagens para meu chefe era o político do qual eu estava trabalhando. Depois, disse que o pai dele me odiava (sem motivos para tal). Eu era incapaz de perceber o que estava acontecendo, achava que uma pessoa que era tão minha amiga durante cinco anos estava querendo me ajudar, aqueles palpites nada mais eram do que ajuda. Só que após passar um tempo, percebi que ele conseguia acessar meus e-mails, Facebook e fingia que não. Chamei uma pessoa que entendia mais do que eu sobre isso e ela me confirmou que ele fazia estes acessos. Baixava minhas conversas. Foi frustrante. Muito abalada psicologicamente, acabei caindo na armadilha que ele vinha criando, infelizmente, perdi meu trabalho, perdi meu projeto. No final, ele criou um projeto paralelo, mais ou menos com a mesma ideia que a minha, utilizando os possíveis apoiadores que seriam meus. Enquanto se aproveitava de minha fraqueza, dizia para terceiros que eu vinha enlouquecendo. Bom, o que posso dizer, após um ano dessa turbulência, é que devemos sempre estar atentas. Há pessoas que falam manso, se fazem de boas, mas são piores do que as explosivas. Não gosto de lembrar de nenhuma parte do meu passado que essa pessoa esteja presente. Foi muito traumático para mim. Era uma pessoa que ajudei tanto profissionalmente como pessoalmente. O que ele mais queria que eu fizesse era me calar. E insistia nisso com argumentos horríveis, mas disfarçados de bons conselhos. Graças a Deus, tenho amigos que lembram meu passado sem a presença dessa pessoa, o que me ajudou muito a minha recuperação. Quando passamos por essa situação, é muito complicado, pois é uma violência silenciosa. Até hoje fico com alguns questionamentos, que sei que são traumas causados por esse passado. Exemplo disso é que não uso mais meu computador (do qual ele me deu) com a mesma liberdade que antes. Pode ser apenas uma cisma boba, mas sei que muito além de uma cisma, é um resquício de uma violência silenciosa que me trouxe traumas violentos. Espero que eu seja exemplo para que outras mulheres jamais caiam nessa armadilha.

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